Wednesday, 27 February 2008

O sentido dos sentidos

Os lugares não têm um sentido. Têm muitos. Estão repletos deles. Seja em jeito de muitos significados possíveis ou de trajectos e direcções – que são outros sentidos (dos que nos fazem chegar a um Aqui e Agora). Os sentidos – todos eles – e o próprio sentir, nascem algures na passagem de gentes por Ali. Em bom rigor, nascem na conversa que vamos tendo com os sítios, caras, e coisas com que nos cruzamos.

Hoje de manhã nada me respondeu.

A verdade é que eu também tenho sempre a sensação de que acabei de chegar. Ou melhor, que ainda não cheguei bem, e aliás, até já estou quase de partida. Tenho a mania de andar assim, de fugida. De passagem. Por isso é que fico de olhos arregalados por dentro e sorriso por fora quando me oferecem pequenos gestos que acabo por não saber interpretar. É que no início, quando se acaba de vir e se começa a chegar, ainda não se sabe que língua é que se usa naquele sítio. Há sítios em que “bom dia, como está?” se diz “onde vai?”. E só depois de passarmos muito tempo irritado com este cumprimento estranho a pensar, por detrás do sorriso envergonhado que devolvemos, “mas o que é que você tem a ver com isso?!” é que damos conta das respostas que as pessoas dali dão: “Vou apanhar ar” ou ”Vou por aí”. Noutros sítios ainda, o “Bom dia como está?” até quer mesmo dizer “Bom dia, como está?” - e pede resposta.

Aqui em Lisboa, normalmente, o caminho que faço não me pergunta nem diz nada. Já cá estou há tempo suficiente para fazer o trajecto em piloto automático e saber que demoro 15 minutos a chegar do Príncipe Real ao Rato, se calçar a passada assertiva. Se calhar é por mostrar esse ar “metido em si”, de quem sabe que direcção toma e para onde vai, que nada nem ninguém me faz perguntas ou diz seja o que for. Calo este silêncio com música-cobertor que trago sempre nos auscultadores.

As únicas coisas que me sacudiram hoje de manhã, e me despertaram com uma batida mais forte que a da música que ouvia, só me disseram: “estás perdida?”. Isto soluçou-me um carro mal pus o pé para atravessar a rua, numa daquelas crises de histeria colectiva em que todos os carros da rua entram na cacofonia da buzinadela. Hoje escapei por um triz, mas bateu-me por dentro.

Estava a pairar nisto quando fui empurrada para continuar o dia com um encontrão. Ultrapassou-me um dos pares de botas de camurça que não me dizem nada para além de pertencerem a uma das muitas jovens entre os 19 e os 26 anos que as usam hoje em dia. Fingi que não tropecei com a delicadeza e acelerei o passo de tal maneira que se as casas e lojas ao longo da rua já não tinham cara, deixei de as ver de todo: esbateram-se numa espécie de pano de fundo pardo ao longo do qual segui até ao metro.

Até sei que há gente dentro das lojas, dos carros, das botas de quem tem entre 19 e 26 anos, e dos vultos para quem nunca olho e que se sentam em banquinhos no passeio, ali ao lado do conservatório, com o seu estaminé cheio de papéis e coisas de plastificar cartões. Mas passa-me tudo ao lado! Escorre este caminho por mim como um vento que nem aquece nem arrefece. E é que acho isto tão errado como uma praia não ter cheiro a maresia. No entanto, não consigo evitar o que não vejo. E desculpo-me: se calhar não vejo significados ou sentidos nestes lugares também por ser baixinha, e viver num campo de visão em que reinam os ombros dos outros; ou seja, o plano em que só se vêm bocados de pescoços a sobressair de golas de camisa e de écharpes, e, às vezes, os cabelos que se espreguiçam o suficiente até ao nível dos meus olhos.

Mergulhei, como sempre, nas escadas rolantes do metro, sempre cheio de gente e, no entanto, sempre impessoal. E como se não bastassem estes vazios que nos enchem, as escadas teimam em arrastar-me todos os dias num tremelique soturno, e em crescente (qual banda sonora de filmes de terror...), como se me quisessem lembrar que há um dia cinzento pela frente. Viro robot e passo o torniquete mecanicamente antes de seguir em manada, e entrar no metro a tempo de não ser deixada no cais pelos apitos fatídicos que cerram as portas. A direcção é clara, até porque o Rato é paragem terminal. Mas qual o sentido de seguir um caminho que implique o trajecto diário para o Campo Pequeno...

Sacudi o pensamento ao ajeitar a minha mochila para me sentar. Recuso-me a tirá-la. É que invariavelmente há-de vir uma senhora, mais ou menos tia, com mais ou menos sacos na mão, para ficar acusatoriamente especada a olhar para o lugar onde estão as minhas coisas. Por alguma razão, nunca lhes passa pela cabeça reclamar o lugar da fila a seguir, que está acompanhado por outro lugar igualmente vazio. Por isso, já sei exactamente qual o ponto estratégico em que a pontinha de mim se encontra com a pontinha do banco sem que eu vá deslizando com cada travagem.

Hoje, ao tentar ignorar as vagas de água de colónia e suor, acabei hipnotizada com o homem sentado à minha frente que estava incessantemente a mexer todos os músculos da cara. E remexer. E voltar a mexer. Remexer. Mexer. Remexer. Mexer - ao ponto de ser bastante mais irritante do que quer que seja que ele queria limpar dos dentes sem os mostrar! Mas nem com tanta atenção fui capaz de memorizar traços que me permitissem reconhecê-lo um dia mais tarde. Pertence à massa amorfa em que me misturo.

Saldanha. No matagal de gente que se empurra para sair, veio uma onda que, em efeito dominó, gerou um encontrão que me colou a testa e o olhar na janela. Vi-me reflectida. E ao reflectir vi-me contraída e contida. Foi quase atroz ver a corcunda com que a mochila me carrega e desfigura os limites de mim. Nunca me pesaram tanto o computador e os livros.

Depois foi um piscar de olhos.

Fixei-me no espaço entre o corrimão em que os passageiros de pé se seguram, normalmente entre as cabeças encostadas dos passageiros que vão sentados, e a parte de cima do banco. Apareceu uma nuca de cabelo esbranquiçado, raro e em desalinho. Percebi também uma gola de fazenda de um sobretudo que subitamente ganhou vida. Sem deixar de olhar para esse ecrã imaginário, percebi que o sujeito estava a espreitar por um tubinho que apontava para o candeeiro. Achei caricato ver um homem a brincar com um caleidoscópio de bolso no metro. E por alguma razão, fiquei intrigada com o passo em espiral com que se aproximou da porta – com qualquer coisa de determinado e desajeitado ao mesmo tempo. As costas do sobretudo acolheram uma lufada de ar quando as portas se abriram, e dançaram para mim ao tornearem-se umas às outras. Sedutoras, convenceram-me a seguir o homem. Saltei fora rapidamente, batalhei contra mochila que me prendeu nas frinchas entre as pessoas que não se mexiam e as que passavam muito depressa, e ia já no encalço da emoção, quando a aventura se esmigalhou. Vi-o a sumir-se para dentro de um banco.

E agora?

O homem desapareceu-me subitamente de vista e do pensamento. De repente vi-me a braços com a suspensão de estar parada no meio da rua. Das tais coisas que não se fazem. Age-se. Ou reage-se. Mas qualquer coisa! Ponto e vírgula é que não!

Como não sabia que direcção tomar, nem que sentido dar àquilo, comecei a olhar em volta aflitivamente. Foi então que reparei no riso de um desabrigado que estava apontado para mim. Ele estava com certeza no sétimo sono, encolhido num degrau do edifício enorme do banco, e a dar todos os sentidos e mais alguns à vida que leva sem grande direcção definida. A expressão claramente satisfeita em que descansava até dava um ar da sua graça à barba torta e rebelde. Se calhar estava em plena história de amor – quem sabe quais as fantasias das gentes des-casa-das? Acolhia-se num abraço de criança, e segurava a cara também só com uma luva. Guiou-me o nariz porque senti chulé. Lembro-me por isso dos sapatos rotos - bem diferentes das botas de camurça, até porque ele estava entre ruas, vidas e mundos que nada têm a ver os das jovens que se ficam entre os 19 e 26 anos. Chu-lé. palavra que há tanto não me passava pela cabeça. Divertiu-se um sorriso na minha própria cara com a ideia. Abstraí-me do sentido e fiquei a balançar na sonoridade da palavra como se tivesse sido atirada com a ponta do dedo de uma criança. E abateu-se o sorriso em seguida, sugado pelo arrepio de me aperceber que já não via as pessoas de uma maneira tão preenchida e simples há uns tempos.

Talvez por isso, ouvi outra vez as ondas do mar, que cobriram a própria música-cobertor. Também já me tinha esquecido disso. Acho que foi de ter apanhado muitas otites; de vez em quando ouço as ondas do mar do lado direito. é como se encostasse um búzio com personalidade ao ouvido: por vezes arriba uma cadência mais forte e atribulada; outras, um compasso imenso e calmo. Ssshhhh..... shhhhhh..... shhhhhsssssossego. Desta vez, trouxe-me um sossego. Sshhhhh....shhhhh...shhhh Deixei a inveja de lado e, num silêncio cúmplice e solidário, pedi à cidade que deixasse o homem dormir.

Começou a dar jazz nos auscultadores e mudei de ritmo. Resolvi ver as pessoas à minha volta, que já caminhavam rápido, em fast-forward, como se fossem bonecos desajeitados a correr com passinhos pequeninos. A cena ficou mais caricata quando me apercebi que o prédio da Caixa Geral de Depósitos à minha frente, no mais fino e vanguardista da arquitectura portuguesa, lembra uma construção de Legos. Resolvi voltar atrás e re-parar.

Para o fazer melhor, entrei no metro de olhos fechados. Caminhei devagar, com o passo cauteloso e amedrontado. Cerrei as pálpebras enquanto me vi embrulhada nos fragmentos de vozes e de vidas que passavam por mim, vindos de todas as direcções

“A que horas cheg-“,

“... e depois ele disse que...”,

“sim, com certeza sr. Firmino”,

“até logo querido..”.

Graves, estridentes, ralhadas e sussurradas, elas roçaram-me o braço, bufaram-me no cabelo ou hesitaram um passo e contornaram-me intrigadas. Fui entrando assim na rebentação das ondas de pessoas que começavam a subir para a rua de onde se ouvia a ardina destes tempos pós-modernos. Lá de trás, do cimo das escadas, ela interrompeu a distribuição dos novos jornais grátis e ficou toda ela mais florescente que o colete que trazia: “Olha a paixão da minha vida!! Estava com saudades tuas, amor! ‘Tás bom?”. Provavelmente achou por bem lançar o piropo para um garboso jovem engravatado, um que, seguramente, se quereria ver noutro filme qualquer. Houve alguém que me percebeu na busca pela direcção em que seguir, me deu uma mão e me abraçou ao de leve com a outra para me soprar docemente até à carruagem. Não me falou, mas disse-me que era por ali o meu caminho, e pôs-me no sentido do Rato: que se vai tornando casa.

“Excuse me?” um casal canadiano resolveu acordar-me para me pedir indicações. Desliguei o leitor de mp3 e dei-lhes a minha atenção. Enquanto lhes dizia em que direcção ficava o sítio que procuravam guardei o meu segredo: mal sabem eles que é por puro acaso que sei onde fica. Como típica recém-chegada, sei pouco mais que o caminho casa-trabalho. Ponham-me na rua ao lado sem me mostrarem como é que lá cheguei e estou perdida. Envergonhei-me da minha prisão a essa geografia, e agradeci o elogio “You’re English is excellent!”.

Durante a conversa ouvi ao fundo Chinês e uma língua eslava qualquer que conheço igualmente mal. Ssshhhh... shshhhhh... shhhhsss..... Sosseguei. Fez sentido estarem ali e soube-me bem partilhar a diferença: eles também não vieram de cá. Mas se calhar até já cá estão há tempo o suficiente para serem de cá.

Saí com eles e repetimos os mesmos gestos e passos. Seguiram à minha frente, escada rolante acima. Pousei o olhar neles e, abracei um percurso meu ao começar a tocar a cidade. Fiz uma festa à parede de azulejos e fui sentindo as formas geométricas que as decoram. Tocaram-me de volta os bocadinhos de pessoas que ficaram gravadas nela: a pinga sacudida do casaco num dia de chuva, a terra salpicada dos saltos altos, o trautear baixinho de alguém que acordou bem-disposto, o pó nos sítios em que o casal de namorados não se encostou.

Comecei a caminhar pela rua fora e logo me vi envolta em cusquices do que se passou ontem no boémio Bairro Alto a par e passo. As pedras da calçada foram tecendo os rumores sorrateiramente, começando de soslaio - como quem não quer a coisa - pela sola dos pés de quem queira ouvir. À medida que desacelerei o passo para as escutar foram-me massajando a alma com histórias que eram de sobressaltos e brigas de rua, segundo as pedras que mais levantaram do passeio, e de beijos roubados numa esquina de rua, como comentavam “aqui p’ra nós” as pedras mais recostadas no piso mais encovado. De repente, a rua começou a rechear-se com as vidas de que me falavam: o homem que perdeu o emprego; a rapariga que foi atrasada para um exame; o menino orgulhoso de ter vindo para casa sozinho pela primeira vez; um estrangeiro que não fazia ideia que a rua em que queria estar não era aquela, mas a outra ao lado. Foram também as observadoras pedras que me fizeram tropeçar, para me alertarem para os plastificadores de documentos, que afinal não plastificam nada. Nunca me tinha ocorrido, mas, realmente, o homem está sempre muito engravatado e a senhora muito bem posta para montarem um estaminé todos os dias à porta do conservatório com o propósito de plastificar documentos. Nada disso, portanto: estão-se a manifestar pacificamente por causas e direitos que interessam muito a cidadãos preocupados – e, obviamente, nada aos representantes do governo que passam por eles diariamente numa pacificidade igualmente passiva

Mas quem já não passou ao lado fui eu. Agarrei o aroma de bolos acabadinhos de fazer que a padaria me estendeu. Devolvi o galanteio a um outro corcunda que me sorriu ao de leve quando nos cruzámos. Deixei que os plastificadores activistas ganhassem cara. Descobri que há caravelas amarelas, ou qualquer coisa que resolvi que pareciam barcos com esferas armilares e bandeira em cima dos postes de iluminação. Nisto, fiquei-me a flutuar na malha sonora que esticou a parte de trás da minha cabeça, linhas de sons disparados em que se confundiram o ronronar do motor dos carros ao meu lado com os vrrrummms dos carros que passam noutras ruas.

Vim parar a um café com vista para o rio, o mar e um encontro. Seja onde estiver, vinda de onde vier, recolho-me sempre em cafés a quem não preciso de pedir grande resposta: há sempre um tampo da mesa e uma chávena que aquece as mãos que a vestem durante os minutos que dura uma meia-de-leite. O meu ritual é encostar a chávena ao peito para que me aqueça, quanto mais não seja por simbiose. Damos alento uma à outra: eu com uma carícia, ela com o vapor de cheiro a café. Ali, o Sr. Joaquim fez o trabalho por nós. Rodopiou vindo ele e o seu bigode de trás do balcão, numa valsa animada com a vassoura. Num trago de alegria e exuberância cantou-me um bom dia. Da janela dava para ver o rio a caminho do mar. Fiquei a pensar se algum dia a minha praia seria por aqui. E o embalo das ondas invadiu-me para me sussurrar que estava perto. Sssshhhh....sshshhh.... shhhh... “SSSSevilha! O barbeiro!!!”O Sr. Joaquim ajeitou o avental nesta tomada de decisão, e preparou a voz quando me apanhou com o olhar brincalhão. Senti-o: calhou-me o galanteio do dia. Acompanhado com um festival de tilintares dos pratos e talheres que a filha lavava atrás do balcão, e com o sibilar da máquina de café, agora em tom de “Barbeiro de Sevilha”, perguntou-me um sentido “A meniiiiiinnnn-n-n-n-na quer maiszzzzzz allllgumacoiiiis-a?”. “Não, não, obrigada. É tudo. Fico só um bocado por aqui.”

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